Acerca de mim

Um pouco sobre mim

Nascido na Freguesia da Foz do Douro, Porto, berço da minha infância e juventude, mudei-me mais tarde para o "coração" da vizinha freguesia de Nevogilde, onde vivi alguns anos, freguesia que em tempos idos foi parte do concelho de Bouças (actualmente Matosinhos), considerada também como Foz, particularmente a sua frente marítima, destacada pelas avenidas do Brasil e de Montevideu, Após a reforma administrativa do Porto, S. Miguel de Nevogilde passou a fazer parte integrante da cidade e uma das suas quinze freguesias. Refiro o local onde vivi como "coração" da freguesia de Nevogilde, pelo destaque que o Largo (com o mesmo nome) merece, por ser o ponto principal de Nevogilde, largo que, tal como referiu em tempos o historiador Germano Silva, num artigo publicado no Jornal de Notícias: “é um dos raros recantos do Porto onde o urbanismo moderno não matou definitivamente o ambiente de ruralidade que por ali se respira”. Há mais de 30 anos fixei-me em Matosinhos, onde actualmente resido, próximo ao mar, mar esse que me viu nascer e sem o qual já não me habituava a viver. Gosto do seu barulho, do seu silêncio e do seu cheiro. Gosto de o sentir por perto e de caminhar junto a ele. Ele faz parte da minha vida.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A Banheira de S. João da Foz



Encontramos a partir do séc. XVIII, em várias publicações, referências à banheira da Foz. Mas é no Album de Costumes Portuguezes, edição das Livrarias Aillaud e Bertrand (Paris/Lisboa), publicado em 1881, que à Banheira é dedicada uma página que, para além do desenho de M.Macedo, é descrita num excelente texto do escritor Ramalho Ortigão como uma “mulher robusta e vigorosa” , como proveniente “… de uma estirpe de outras banheiras, e constitue pelos seus caracteres heriditários uma casta distincta …” sendo que “…. sem esse privilégio selectivo, de nascença, nenhuma mulher tomaria por offício dar banhos, passando oito ou nove horas por dia, durante quatro meses do anno, mettida no mar até ao peito”.

E completava ainda o autor do livro As Praias de Portugal (1) que a sua diferença se impôs “ … pelo trajo, pelas attitudes, pela expressão physionomica, pelo sorriso, em que o vermelho vivo das gengivas e o branco pérola dos dentes lembra uma frescura de guelra e a respiração salgada cheirando a sargaço, pelo olhar límpido e profundo …”. Pelos vistos também muito alegres, porque “ … de madrugada, ao armar das barracas, quando ellas, accordadas com os primeiros massaricos prateados que debicam a salsugem da maré, entoam em coro de sopranos uma das muitas barcarolas locaes, uma aguda palpitação de poesia festival e triumphadora preenche o ar …”.  

Confessava o escritor ter sido a banheira Anna da Luz “ … a alegria para o meu coração inquieto, e o contentamento para a minha alma resignada”.

Também Eduardo Sequeira, na sua obra À Beira Mar, de 1889, escreveu que a banheira era “ … serviçal em extremo e sabe, com uma arte especial captivar a simpatia de todos, das crianças a quem anima, da rapasiada com quem confraternisa alegremente, e dos velhos cercando-os de considerações e respeitos, prodigalisando-lhes cuidados e confortos”.

O Banheiro. (Desconhece-se a data desta foto)

Ainda que Ramalho Ortigão referisse na citada publicação que o ofício de dar banhos se prolongava por quatro meses do ano, no seu livro As Praias de Portugal, escreveu: “no principio da estação, em Agosto, começavam a chegar à Foz os banhistas. Muita gente vinha do Porto de madrugada, tomava banho e regressava à cidade. Este serviço era em grande parte feito por carroções, um dos mais extraordinários inventos do espírito portuense, applicado à locomoção”.

Segundo o escritor, “ o carroção era um pequeno predio, com quatro rodas, puxado por uma junta de bois. Além das famílias que iam à Foz de carroção, havia as pessoas que iam em burros. Ao pé de Sobreiras parava tudo para desaguar o gado e para os homens comerem. Ninguém fazia o trajecto de ida e volta à Foz em menos de seis a oito horas, compreehendido o tempo do banho”.

Estrada da Foz, Por aqui passavam os transportes para as praias da Foz do Douro. Desenho de LLonch, 1887, do album Imagens do Porto Oitocentista, edição do Arquivo H. da Câmara Municipal do Porto.

Aos carroções seguiram-se os chas-à-bancs e desde que estes entraram na carreira da Foz, partindo do Carmo e da Porta Nobre (2) o movimento dos banhistas aumentou extraordinariamente e a vida nas praias da Foz do Douro, na opinião de Ramalho Ortigão, entraram na sua fase moderna.

Depois dos chas-à-bancs surgiu o americano, carro puxado a cavalos ou mulas. Este meio de transporte, segundo o citado escritor, converteu em pouco tempo a Foz num bairro do Porto, isto naturalmente pela substancial redução do tempo que levava a fazer o percurso.

Imagem da praia e casario da rua da Praia, muito anterior à construção da actual rua Coronel Raul Peres.

Consta que os banheiros da Foz do Douro festejavam o fim da época balnear, por altura da Romaria a S. Bartolomeu, uma das mais importantes festividades que se realizava a norte. Adornavam o corpo com algas e outros adereços de origem marinha e desfilavam pela praia em alegre brincadeira. Inicialmente esta festividade confinava-se à zona da areia. Mais tarde passou a fazer-se também pelos arruamentos junto à praia.

Figurantes do Cortejo de S. Bartolomeu de 1948. (foto gentilmente oferecida pelo saudoso amigo S. Oliveira Maia)

Crê-se que este festejo terá estado na origem do cortejo do traje de papel, que ocorre num domingo próximo de 24 de Agosto, dia consagrado ao Santo mártir. Talvez este seja único no mundo, no seu género, em que os seus figurantes se vestem de papel e percorrem várias artérias da freguesia culminando no mar, onde as roupas se desfazem num banho considerado por alguns como “banho que vale por sete”. Ao cortejo de S. Bartolomeu dedicarei proximamente um trabalho neste blogue.

Figurantes do quadro alusivo ao livro As Praias de Portugal, em desfile, no cortejo do traje de papel em 1991, sob o tema, Os Escritores Portugueses.

Para terminar, transcrevo os três primeiros parágrafos do capítulo dedicado à Foz do Douro, do livro As Praias de Portugal:


“ Foz! Saudosa Foz! Residência querida da minha infância tão afastada já – ai de mim! – d´estes annos duros! Com que terno prazer que eu te saúdo, sempre que te avisto, ou penso em ti!

Estamos bem mudados ambos – velha amiga! – tu do que foste, eu do que era!

No tempo em que eu ia de chapéu de palha e de bibe, à tarde, apanhar conchinhas na costa, pela mão de minha avó, tu eras grave, simples, burgueza, recolhida e silenciosa como uma horta em pleno campo”.


Como fozeiro, residente fora da Foz há mais de vinte anos, subscrevo as palavras de Ramalho Ortigão, com as devidas diferenças. Uma delas é que não ia pela mão de minha avó à praia, porque infelizmente já não conheci nenhuma das duas. Mas ia pela mão de minha mãe, ainda que a Foz já não fosse, nesse tempo, “recolhida e silenciosa”.



1)     As Praias de Portugal, Guia do Banhista e do Viajante – Porto Livraria Universal – 1875.

2)     A Porta Nobre situava-se cerca do meio da actual rua Nova da Alfândega, ainda que num plano inferior aquela artéria do Porto.


Agostinho Barbosa Pereira       

 

domingo, 12 de agosto de 2012

Florbela Espanca e Matosinhos


Florbela Espanca assume para Matosinhos elevada importância por vários factores dos quais destaco: Foi a cidade do norte do país, para onde veio residir com o segundo marido. Foi também nesta cidade que casou pela terceira vez (e a primeira religiosamente) e foi ainda a cidade onde preparou a sua última publicação, onde faleceu e onde os seus restos mortais estiveram sepultados até a sua trasladação em 1964.

Quando Florbela Espanca, já separada do seu primeiro esposo, vivia uma relação amorosa com António Guimarães, alferes miliciano da Guarda Nacional Republicana, que viria a ser o seu segundo marido, pretendeu vir viver para junto dele, uma vez que este havia sido colocado no Destacamento de Artilharia do Porto, no Castelo da Foz do Douro. Numa das suas cartas, para o seu “adorado Toninho”, como assim o tratava, escreveu: “Não sei o que esperas para alugar casa. Dizes que a questão é ir, pois te digo que a questão é ter um buraco por modesto que seja. Palácio ou tenda na praia, o que preciso é casa minha.”.

Acabaram por fixar, em agosto de 1920, residência na rua do Godinho 146, em Matosinhos. Só mais tarde, Janeiro de 1921, foram morar para o Castelo da Foz do Douro.

Última fotografia de Florbela Espanca (reproduzida 
de um livro) tirada em Évora no verão de 1930

Depois de ter casado com Guimarães, em 03 de Julho de 1921 e dele se ter separado mais tarde, iniciou uma relação amorosa com Mário Lage, médico de Matosinhos, que diziam ser um “bom samaritano” que outra coisa não teria feito senão dar-lhe firmeza e conforto na sua vida.. Lage foi tenente médico do mesmo Destacamento de Artilharia do Porto, da G.N.R.., no Castelo da Foz, de Julho de 1920 a Fevereiro de 1922, data a partir da qual passou a exercer as funções de sub delegado de saúde de Matosinhos.


Florbela padecia de várias complicações de saúde, tendo sido este médico a tratá-la. O que os terá aproximado e que os levou a apaixonarem-se um pelo outro.

Contraiu matrimónio com Mário Lage, na Igreja de Matosinhos em Outubro de 1925 ( e não em Dezembro, como por lapso referi no texto que aqui postei, sobre Florbela, em 01/01/2012). Passaram a morar na casa de família do médico, na rua 1.º de Dezembro, 540, em Matosinhos. E é aqui que encontra finalmente um lar onde todos a tratam bem, todos lhe procuram dar consolo para os seus males tamanhos do corpo e da alma, como relata Maria Alexandrina no livro A vida ignorada de Florbela Espanca, edição da autora em 1965. Refere ainda nessa publicação que Florbela “passa as tardes deitada na areia doirada olhando o mar inquieto e que ela admirava tanto e é ali, entre o verde das águas e o azul do céu, que confidencia a Guido Bottelli (um amigo italiano que a ajuda na tentativa de apressar a edição daquela que terá sido a sua última obra “Charneca em Flor”) os seus tormentos de menina, as suas desilusões de adolescente e a sua ventura chegada quando é já mulher experimentada de tantas dores…”
                                                                                                                                                           
Casa onde viveu e morreu Florbela Espanca 
             
Escreveu José Carlos Fernández, no seu livro Florbela Espanca, A Vida e a Alma de uma Poetisa, edição Nova Acrópole, em Fevereiro de 2011, que numa festa celebrada no Hotel do Porto, no final do verão de 1930, uma amiga de Florbela apresenta-lhe o advogado Ângelo César, do Porto e juntos iniciam um romance. “A poetisa está de novo apaixonada”, refere Fernández. Mais diz que a poetisa terá oferecido a César, uma aguarela, da autoria de seu irmão Apeles, já falecido, e dois sonetos, “Quem sabe…” e “Trazes-me em tuas mãos de vitorioso”, que dedicou a este novo amor.

Não chega a ver publicado o seu último livro. Depois da prolongada doença se intensificar e a reter em casa, vem a falecer na madrugada do dia 08 de Dezembro de 1930.

Ter-se-á suicidado porque lhe foram encontrados, debaixo do colchão, dois frascos vazios de “Veronal”, sonífero que tomava regularmente. A certidão de óbito é assinada por um carpinteiro!, com a causa da morte “edema pulmonar”. Para que ninguém da profissão médica se visse implicado em mascarar o tipo de morte, escreveu Carlos Fernández. Mário Lage, o marido, num telegrama urgente que enviou, dando conta da sua morte, escreveu laconicamente “morreu Florbela Lage”.

Depois das exéquias fúnebres, foi a sepultar no cemitério de Sendim, em Matosinhos. Mais tarde, em 17 de Maio de 1964, foram os seus restos mortais trasladados para a sua terra natal em Vila Viçosa.

Escultura da autoria de Irene Vilar.
 QUEM NOS DEU ASAS PARA ANDAR DE RASTOS?
QUEM NOS DEU OLHOS PARA VER OS ASTROS
- SEM NOS DAR BRAÇOS PARA OS ALCANÇAR?
FLORBELA ESPANCA

Para além da escultura (máscara) da autoria da saudosa escultora Irene Vilar, patente num pequeno jardim na confluência das ruas, Tomás Ribeiro e Ló Ferreira, Florbela Espanca tem perpetuado o seu nome na toponímia da cidade e na Biblioteca Municipal de Matosinhos. Também a Universidade Sénior desta cidade adoptou o seu nome.

Florbela Espanca que num dos seus poemas, cantado por Luís Represas, no tema “Perdidamente” escreveu:

“ser Poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens!”

Morreu muito jovem. E só mais tarde lhe foi reconhecida a verdadeira grandeza que tem e merece.

Agostinho Barbosa Pereira


Imagens de Matosinhos à Foz do Douro

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