Acerca de mim

Um pouco sobre mim

Nascido na Freguesia da Foz do Douro, Porto, berço da minha infância e juventude, mudei-me mais tarde para o "coração" da vizinha freguesia de Nevogilde, onde vivi alguns anos, freguesia que em tempos idos foi parte do concelho de Bouças (actualmente Matosinhos), considerada também como Foz, particularmente a sua frente marítima, destacada pelas avenidas do Brasil e de Montevideu, Após a reforma administrativa do Porto, S. Miguel de Nevogilde passou a fazer parte integrante da cidade e uma das suas quinze freguesias. Refiro o local onde vivi como "coração" da freguesia de Nevogilde, pelo destaque que o Largo (com o mesmo nome) merece, por ser o ponto principal de Nevogilde, largo que, tal como referiu em tempos o historiador Germano Silva, num artigo publicado no Jornal de Notícias: “é um dos raros recantos do Porto onde o urbanismo moderno não matou definitivamente o ambiente de ruralidade que por ali se respira”. Há mais de 30 anos fixei-me em Matosinhos, onde actualmente resido, próximo ao mar, mar esse que me viu nascer e sem o qual já não me habituava a viver. Gosto do seu barulho, do seu silêncio e do seu cheiro. Gosto de o sentir por perto e de caminhar junto a ele. Ele faz parte da minha vida.

sábado, 19 de novembro de 2011

Conjunto Típico Estrelas da Foz - Um pouco da sua história.


O Conjunto Típico Estrelas da Foz nasceu na Foz do Douro, Porto, em 19 de Setembro de 1962.

Numa altura em que apareceram, um pouco por todo o país, agrupamentos de música popular portuguesa, do quais se destaca o Conjunto António Mafra, nascido no Porto e talvez inspirador de muitos outros, também os “Estrelas da Foz”, como eram conhecidos, foram criando muitos temas naquele estilo musical para que estavam vocacionados

Desde o seu aparecimento foram participando em diversos festivais, espectáculos e actuações diversas.

Do historial de prémios do grupo, destaca-se o troféu de vencedor do “Capacete de Ouro”, do festival de música popular portuguesa realizado pelos Bombeiros Voluntários de Leça da Palmeira e o troféu denominado “Taça Quadrante Norte” do festival, também de música popular portuguesa, iniciativa do Jornal de Notícias.
Conjunto Típico Estrelas da Foz - Quando esta foto foi tirada, para a capa de uma das cassetes do grupo, ainda a escultura de "S. João a baptizar Cristo" que se vê na imagem, estava na zona do Marégrafo. Posteriormente, em 1994, foi implantada no lago do Jardim do Passeio Alegre, junto à "Foca". É da autoria do membro do grupo, saudoso Senhor Alberto dos Pilotos, como era conhecido (o segundo a contar da esquerda) 

Depois de um interregno de vários anos, reapareceu no ano de 2000 com alteração na sua formação. Entraram dois novos elementos substituindo um por doença e outro que havia falecido.

Participou, em Junho de 2003, no III Festival Amador da Canção da Foz do Douro, iniciativa conjunta do Orfeão da Foz do Douro e da Banda Marcial da Foz, tendo obtido o primeiro prémio no tema regional, com a canção O DOURO NAMORA A FOZ.

Ao longo de toda a carreira gravou dois discos single, com a etiqueta Orfeu, três cassetes e um CD, este em 2003, com o tema vencedor do Festival antes citado.

As letras e músicas do seu vasto repertório são da autoria de António Pinheiro, fundador do grupo e um dos seus componentes.

Há alguns anos que este grupo se encontra desactivado.




Vídeo que publiquei em 01/11/2011 no Youtube com o tema 
O Douro Namora a Foz e imagens da Foz do Douro, da minha autoria.



Relação de alguns dos temas do repertório do Conjunto Típico Estrelas da Foz

O Jardineiro
Viva o Porto
Cavaquinhos do Minho
O Resmungão
O Licas
Rusga da Foz
A Vizinha de Baião
O Canário da Anita
O Meu Vizinho João
Tomatal
Coça o Bicho
O Douro Namora a Foz
Rapioqueiro do Porto
O Chico da Careca
Vestido das Pintinhas
A Vaca da Minha Prima
O Quim da Pasteleira
Ladainha de Solteiro
Sonhos Sem Mote
Panteras e Dragões
Desfolhadas Com Milho Rei

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Figuras do Porto (e arredores)








A Padeira de Avintes, do Album de Costumes Portuguezes, edição das Livrarias Aillaud e Bertrand(Paris/Lisboa) com texto de Ramalho Ortigão na ortografia original.



A PADEIRA DE AVINTES

A mulher representada n'esta pagina é conhecida em toda a cidade do Porto e seu termo pela designação genérica de Padeira de Avintes - o que não obsta a que de ordinário ella não seja, nem de Avintes nem Padeira. Prudente aviso á precipitação d'aquelles, que pelo simples aspecto social e pittoresco de seu semelhante, tão ousadamente se abalançam a determinar-lhe o sexo, a profissão e a naturalidade!

Aquella - se assim ouso exprimir-me - padeira, e - porque assim o digamos - de Avintes, habita a margem esquerda do rio Douro, na sua zona mais desafogada da angustia das fragas, mais verdejante e risonha, não prefixamente em Avintes, mas em qualquer ponto da borda d'agua desde o Areiinho até o ribeiro d'Arnellas.

Vem á cidade, onde umas vezes vende carne de porco, outras vezes os famosos biscoitos de tosta, morenos e estalejantes, bem conhecidos nos chás pacatos das reuniões familiares e das assembléas recreativas, ou a brôa já de milho branco, já de pão de mistura, cuja grossa côdea lourejante, esquadraçada em manchas de escumalho cor de mel, scintilla ao sol como polvilhada de ambar.

Na sua aldeia ribeirinha ella sacha e monda a horta, espadela e fia, bota a teia, engorda o porco, deita a gallinha, forneia, e faz barreia.

Mas, propriamente de profissão, barqueira é que ella é.

O seu bote, meio de carga, meio de passageiros, escuro, comprido, de baldaquino á popa como as gondolas do Rialto, é por ella remado em pé, com a longa pá, sem forquilha onde jogue sem estorvo que a sujeite ao pau do tolete, tão pesada, tão difficil de manejar! rio acima, rio abaixo, da banda de cá para a banda d'além, cantando o Belleisão, cantando o Ribeirinho, n'uma toada lenta e aguda, de uma saudosa expressão embaladora, em que o doce e frio mysterio das aguas correntes parece evolar-se melodicamente da profundidade do rio para a concavidade do céo.

Os que vão dos Guindaes, da Ribeira, de Massarellos ou de Miragaya, jantar ao domingo em família, e em festa «pelo rio acima» a Quebrantões, ao Freixo, á quinta da Oliveira, preferem para a excursão fluvial, ao bote correcto e banal dos barqueiros de Gaya, o pittoresco, o vetusto, o festival pangaio da Padeira de Avintes, mordido pelo sol, despintado pelo tempo, aqui e alli descosido e descalafetado nas juntas do cavername, de toldo de linho em remendos, com a flamula em bico, de panninho vermelho, tre­mulando alegremente na ponta de uma vara de pinho.

A recordação da patuscadinha campestre, da fritura e da salada comida na relva á sombra dos cas­tanheiros, entre o rumor da agua e o gorgeio dos ninhos, fica para sempre alliada na memória á silueta robusta e sadia da esbelta remadora, de cujo aspecto parece vir para nós, n'um ridente effluvio bucolico, a sensação dos fenos percorridos, dos morangaes atravessados n´uma tarde de verão, com o carreiro da alfazema atravez do quinteiro, o pôço ornado de craveiros e de manjaricos, as garrafas lacradas de verde refrescando na agua de bica, os vestidos de musselina, os ramalhetes de papoulas e de espigas de trigo, a alface ripada em jovial collaboração em torno da saladeira em ramagens, e os viveres que saem do cesto novo para a toalha desdobrada no chão, sob um picante e appetitoso aroma de rega, de cuentros e de cebolinho novo.

Ramalho Ortigão






Figuras do Porto (e arredores)





A Vareira (Porto), do Album de Costumes Portuguezes, edição das LivrariasAillaud e Bertrand(Paris/Lisboa) com texto de Fiálho d´Almeida na ortografia original.



A VAREIRA (PORTO)

Chamam no Porto vareira á mulher d'0var e Espinho, que faz pelas ruas da cidade, em canastra, a venda do peixe: exactamente como a varina de Lisboa, de que a vareira em muito pouco ou em quasi nada differe. Sómente, como a cidade do Douro, apesar de se estar lisboetisando dia a dia, mercê das largas ruas com que a sulcam, e das construcções elegantes com que a matizam, conserva iilesos, no fundo dos seus arrabaldes e velhos bairros, travores de província accentuados, succede que a vareira transplantada da sua terra, para a cidade, nenhuma influencia solíreu da vida. Hoje o ambiente,permanece nos seus moradios da Ribeira e da Foz, como em Ovar, uma estatuela rústica e marinha, a que a cidade não desmanchou a garridice austera do trajo, nem tão pouco os hábitos de vida, as inflexões da pronuncia, e a constructura rija, gracil e primeva, da sua physionomia e da sua figura.

Fina e ligeira, com a saia de sirguilha, muito curta, em pregas finas, amarrada por baixo dos quadris - os tornozelos destros, a mão carnuda e esfusada nos dedos - loira ou morena, mas quasi sempre de olhos claros, nariz correcto, cinta ondulosa e cabellos em desalinho, a vareira constitua um dos mais elegantes typos de mulher do povo que ha na Europa (eu ia a dizer que ha no mundo : haja modéstia!); e pela gentileza architectural da sua figura, reata e continua a corrente da formosura antiga, d'essas mulheres de Praxiteles, com pés chatos, cabecinha pequena, seios turgentes e attitudes clássicas, todas vibrantes ainda das reminiscências do Egypto e da Grécia artística, tanto ella já fica distante, no rythmo das formas, e na impeccavel modelação da anatomia, da nossa fémea civilisada das cidades, que os espartilhos e os trabalhos da vida deformaram, e a hystena contorce, e as perversões hereditárias vem chlorotisando e envilecendo.

Ha um quadrinho de género a admirar na margem Douro, n'uma manhã bem clara e luminosa, por baixo das arcadas da Ribeira... E' o d´um barco aproando ao velho caes saiitroso e recomido, que atfronta os arcos, por debaixo dos quaes rebanhos de vareiras, agachadas sobre as lages, as canastras no chão, contam o peixe. Todas conservam o costume de paratudo ou sirguilha escura, saia e collete, que lhes dão á silhouette uma certa austeridade esculptural. O collete é aberto em decote sobre o seio, e atacado adeante por um cordão, sob cujos zigue-zagues cruza um lenço de ramagens, vestindo os meios limões firmes do seio.

N'este vestuário da vareira ha apenas duas notas hilariantes: as filigranas de ouro, do peito e das ore­lhas: e a algibeira de matiz estrepitoso, que a ovarina do Porto por uma presilha suspende a uma das voltas da cinta que lhe estrangula os flancos. Esta algibeira é ás vezes uma obra prima de agulha e colorido, feita de applicações de panno escarlate, azul, côr de canario, em volutas, florões, soes e ramagens, a que vem juntar-se filas de botões de madreperola, pequenas borlas de lã, bordados, silvas. ..
Na confecção d'esta algibeira está em embryão toda uma arte barbara e luxuriante, que as raparigas ensinam umas ás outras, e deixa á vontade, paru a nupcia das gammas polychromas, e para o traçado dos arabescos, a phantasia de cada ingénua bordadora. Não confundir a vareira, que vende peixe pelas ruas, e exclusivamente deriva das tribus que d'Ovar e Espinho emigraram para o Porto, com as Angots do mercado da Cordoaria, portuenses da gemma, e camaradas leaes da reboluda padeira d'Avintes e da sacerdotal lavradeira da Maia - que estas madamas, tão ligitimamente envaidecidas da sua genealogia intra-muros do heroico baluarte, (tripeira, em linguagem menos atlectada) teriam direito a molestar-se da nossa ignorância, e quem sabe se nol-a pagariam, chapando-nos com um robalo podre nas boxexas.

Alem de que, a vareira é uma figura áparte.

Longe ou perto do casebre em que haja nascido, eila é sempre o mesmo typo de formiga activa e fecundante, conservadora das tradições da sua raça, mantendo o vestuário de ha dois séculos, a despeito das modas e das transformações que lhe desfilam deante - indo de quando em quando a terra comprar um pedaço de chão com o producto das suas economias na cidade, e raras vezes escolhendo noivo que não seja um representante da sua tribu, creado com ella. paredes meias, sob os cercados da mesma ilha ou sob a telha-vã da mesma arribana. E isto faz com que dentro dos muros do Porto ou de Lisboa, em plena vida deliquescente, o typo d'ella se conserve e guarde inalterável, como um vivo modêlo de pittoresco, offertado á terre-glaise d'um modelador apaixonado pelo bello antigo.

FIÁLHO D´ALMEIDA

Figuras do Porto (e arredores)



A Vendeira de Fructa no Porto, do Album de Costumes Portuguezes, edição das Livrarias Aillaud e Bertrand(Paris/Lisboa) com texto de Xavier da Cunha na ortografia original.





VENDEDEIRA DE FRUTA NO PORTO

Agrada-lhe? também a mim. Prova de que, o leitor e eu, temos ambos bom-gôsto! Nem real­mente fora acceitavel voto o de quem não sympathizasse com aquelle typo deveras esbelto da vendeira portuense que, a offerecer-nos fructas saborosas e aromáticas, faz quiçá lembrar a graciosidade tentadora com que no paraíso bíblico a lendária Eva presentava ao seu rendido companheiro sumarentos pomos.

Leitor que nunca da capital tenha alongado os passos, e que só por exemplares lisbonenses conheça a fructeira ambulante, mal imagina o que é no Porto a sua congénere! Mal imagina, porque, se ha bruteza que desconsole, é a da mulher-de-giga (collareja ou gallega) que pelas ruas de Lisboa nos vende hortaliça e fructa. O pregão da vendeira lisboeta poderá ser mais musical; poderá. Esta musicalidade, característica dos pregões olisyponenses, parece que vem já de longe. Quem ha que não tenha ouvido falar na cele­bre «Luizinha das camoezas», immortalizada em toantes por galanteador poeta do século XVII?

Figurinhas galantes como esta, não se encontram já hoje por Lisboa: que­brou-se-lhes o molde, creio eu; ficou tão somente a melodia tradicional dos pregões a espriguiçar se em mil requebros de incomparáveis fioriture.

No Porto, não: como fez notar o sagaz critério do nosso Castilho em um dos capítulos da sua Lisboa antiga, no Porto os pregões «são sêccos, áridos, apressados.» É que estamos na terra do trabalho, onde não ha tempo a per­der. A vendeira de fructas, por muito garrida que seja, não pode furtar-se á noção d'este fundamental principio de economia industrial. Ha n'ella o sangue phenicio a denunciar-se por uma irrequieta laboriosidade.

De Avintes, Valladares, e outros circumvizinhos logarejos na margem sul do Douro, eil-a todas as manhans em mercado errante pelas ruas da «cidade invicta.»

Pousa-lhe a canastra em sogra formada por um rolo de ourelos ou coisa parecida; abaixo da sogra, o chapéo de feltro escuro, em guisa de sombrero andaluz, com borlas de retroz, e larga faixa de veludilho a debruar-lhe a aba levantada; entre o chapéo e a cabeça, um lencito, cujas pontas se bamboleiam posteriormente incobrindo-Ihe o arrematar das tranças; segue-se o collete de ganga, ou de cotim, de lan ou de veludo, ás vezes ricamente bordado; nos braços alvejam-lhe nítidas, arregaçadas e fartas, as mangas da camisa; ao collete sobrepõe-se, dobrado em diagonal, um vistoso lenço de chita ou de seda, tarjado por phantasticos florões de ramagem vermelha ou côr-de-laranja; e por sobre o lenço pendentes do collo, os grossos grilhões a sustentarem corações filigranados, de envolta com crucifixos e devotas imagens, tudo de oiro fino, oiro de lei, em harmonia com as enormes arrecadas que lhe derrubam quasi as pequeninas orelhas; depois a saia de estamenha, ou de zuarte, — ou de linhas polychromicas, artisticamente combinada a harmonia do colorido,— saia de toda a roda, em pregas unidas e sobrepostas, que lhe representa a peça mais notável do vestuário; na deanteira o avental de barra; e a conchegar-lhe a saia, para facilitar a locomoção, em vez do cinto que usam as ovarinas, a vendeira portuense adopta ordinariamente um simples lenço enro­lado; desce-lhe a fímbria da saia té perto do tornozelo, o que não obsta a que se lhe destaquem bran­quíssimas como neve as meias de linho no pé calçado em soletas (umas pantufas de couro ou de poli­mento, de lan, de seda mesmo ou de veludo, com bordaduras ás vezes, entrada sempre larga, salto baixís­simo, quasi invisível, e borla espherica de typo mourisco a ultimar-lhe a ornamentação).

Agrada-lhe, ao leitor? Também a mim; também a mim. Prova incontestável, repito, de que nem o leitor, nem eu, perdemos ainda o bom-gôsto.

Xavier da Cunha






quinta-feira, 28 de abril de 2011

FIGURAS DA FOZ DO DOURO

Quem se lembra do Neca Nau, ou simplesmente Nau?



Manuel, seu primeiro nome (confesso que não me lembro dos seus apelidos) vivia numa pequena casa da rua da Beneditina, com a mãe e a irmã – Nina, ou Nina do Nau, como era conhecida.

Homem dotado de extraordinária força (lembro-me de o ver levantar um carro, marca volkswagen “carocha”, a pulso, do lado do motor) fazia toda a espécie de recados, particularmente transporte de cargas às costas. Mas ele, como a irmã, eram mentalmente debilitados.

Nas ruas muitas vezes era apupado ou motivo de constantes “piropos” por miúdos e até por algumas pessoas mais velhas, que gostavam de o ver zangado. Tais atitudes levavam a que ele arremessasse pedras ou corresse atrás de quem o provocava. Também muitas vezes lhe davam bebidas, especialmente vinho, para o verem embriagado.



A imagem dele, que aqui coloco, reproduz a sua participação como figurante no cortejo do traje de papel, das festas de S. Bartolomeu na Foz do Douro, na figura de Gugunhana, em 1965, no célebre cortejo alusivo à história de Portugal.

Mas a organização, a cargo do saudoso Joaquim Picarote, teve imensa preocupação nesta participação do Nau. Desde logo mantê-lo em lugar seguro e vigiado durante a noite, que antecedeu o evento, para que ninguém conseguisse embriagá-lo e com isso inviabilizasse a sua participação. Também durante o cortejo foi necessário “segurá-lo” porque ao longo do percurso muitos foram os que lhe mandaram uns “piropos” de que não gostava.

No início de 1975, depois da morte de sua mãe, já sem forças para angariar uns escudos, vivia com a irmã numa pobreza extrema, embora tivessem a ajuda de vizinhos e amigos. A comissão administrativa da Junta de Freguesia, nomeada depois do 25 de Abril, até à realização da primeiras eleições autárquicas livres, atribuiu a ambos um pequeno subsídio mensal. Porém alguém se havia já interessado pela situação em que estas duas criaturas viviam e conseguiu que a segurança social lhe atribuísse uma pensão mensal vitalícia.

A propósito disso queria dar conta de um facto marcante. Quando recebeu a primeira quantia da Segurança Social, Neca, dirigiu-se à Junta de Freguesia para informar que já não necessitava do montante que a autarquia lhe atribuía mensalmente, pelo que poderiam entregar esse valor a quem estivesse mais necessitado. Fui eu que o atendi, porque nesse tempo os autarcas não se encontravam na Junta durante o horário de funcionamento. Não mais esqueci esta atitude do Neca, digna do maior apreço. Quantos tomariam tal atitude?

Já faleceu há uns anos, bem como sua irmã.

Recordo-o como um homem humilde, educado e respeitador, apesar da sua condição e das suas limitações. Não era agressivo, mesmo alcoolizado. 
Texto de Agostinho Barbosa Pereira.

Imagens de Matosinhos à Foz do Douro

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