Acerca de mim

Um pouco sobre mim

Nascido na Freguesia da Foz do Douro, Porto, berço da minha infância e juventude, mudei-me mais tarde para o "coração" da vizinha freguesia de Nevogilde, onde vivi alguns anos, freguesia que em tempos idos foi parte do concelho de Bouças (actualmente Matosinhos), considerada também como Foz, particularmente a sua frente marítima, destacada pelas avenidas do Brasil e de Montevideu, Após a reforma administrativa do Porto, S. Miguel de Nevogilde passou a fazer parte integrante da cidade e uma das suas quinze freguesias. Refiro o local onde vivi como "coração" da freguesia de Nevogilde, pelo destaque que o Largo (com o mesmo nome) merece, por ser o ponto principal de Nevogilde, largo que, tal como referiu em tempos o historiador Germano Silva, num artigo publicado no Jornal de Notícias: “é um dos raros recantos do Porto onde o urbanismo moderno não matou definitivamente o ambiente de ruralidade que por ali se respira”. Há mais de 30 anos fixei-me em Matosinhos, onde actualmente resido, próximo ao mar, mar esse que me viu nascer e sem o qual já não me habituava a viver. Gosto do seu barulho, do seu silêncio e do seu cheiro. Gosto de o sentir por perto e de caminhar junto a ele. Ele faz parte da minha vida.

domingo, 14 de novembro de 2010

O ABADE MOURA - Sua vivência na Foz

Pároco da Foz durante catorze anos e alguns meses, José dos Santos Ferreira de Moura, nasceu em S. Pedro da Cova, Gondomar, em 29 de Abril de 1839.

Depois de uma breve passagem pelo Brasil, ainda muito novo e a convite de um tio residente no Rio de Janeiro, ingressou no Seminário do Porto, onde, dada a sua vocação para a vida eclesiástica, se ordenou Sacerdote. Inicialmente nomeado Capelão do Convento das Donas de Corpus Christi, em Vila Nova de Gaia, deixou posteriormente este cargo para, em substituição, assumir a Paróquia da Foz, lugar em que tomou posse três anos mais tarde, em 7/11 /1876, como Pároco efectivo.

Considerado um amigo e um protector dos enfermos e dos pobres, a quem socorria com o seu óbolo, visitava-os e assistia-os nas suas enfermidades.

Foi também um político. militante e dirigente local do Partido Regenerador, partido pelo qual foi eleito para o cargo de Procurador à Junta Geral do Distrito, pelos Concelhos de Gondomar e de Valongo, em 1871.

Esta actividade política veio trazer-lhe muitos problemas na Foz. Outra formação política tinha grande importância nesta Freguesia na altura, o Partido Progressista. Liderado por António Carneiro dos Santos (era proprietário do Chalet Suiço, no Passeio Alegre) este partido fazia constante "guerra" ao Abade Moura, mesmo dentro da Igreja, ou seja, nas Confrarias, ao ponto de em 1886 o tentarem impedir de realizar, pela primeira vez na Foz, a Procissão do Sagrado Coração de Jesus. A Mesa da Confraria do Santíssimo Sacramento, tendo sido dissolvida, foi substituída por uma Comissão Administrativa da facção progressista. O Presidente dessa Comissão fechou à chave, na Casa da Fábrica, todos os objectos pertencentes ao culto, incluindo até os bancos do altar nos quais se sentavam o celebrante e acólitos da Igreja, com o objectivo de entravar a realização da Procissão e das festividades. Isto não impediu que o Abade Moura realizasse as festividades e, de acordo com o que rezam escritos da época, foi um êxito.

Homem culto e interessado no progresso e engrandecimento da Foz, foi fundador de duas importantes Colectividades da época, nesta Freguesia: a Associação Protectora de Socorros Mútuos da Foz do Douro, em 1877, e a Banda Marcial da Foz em 1883. Contudo, as rivalidades políticas levaram os seus opositores a fundarem, em 1879, a Associação de Beneficência de S. João da Foz, que mais tarde se veio a designar por Associação Fraternal de Socorros Mútuos. Estas Associações fundiram-se numa só, que passou a designar-se Associação de Socorros Mútuos da Foz e que foi extinta em 1977. Tinha a sua sede no edifício onde se encontra a Banda Marcial da Foz, na Rua Padre Luís Cabral, com quem já partilhava as instalações, até à data da extinção e do qual era proprietária.

Considerado um pregador fluente, o Abade Moura conseguia afirmar o seu talento e os seus vastos conhecimentos da Doutrina Cristã, apresentados aos fiéis de uma forma singela, mas elegante, que o tornava muito querido pelo auditório, que sempre atentamente o ouvia.

Foi aliás um desses sermões que veio a causar a sua morte. Em 22 de Maio de 1887, de regresso a casa, de um sermão na Capela de Nossa Senhora da Ajuda, em Lordelo do Ouro, sentiu um resfriado que se veio a converter numa pneumonia dupla que o vitimou em pouco mais de quinze dias. A sua morte, em 6 de Junho de 1887, repentina e prematura, foi muito sentida na Foz, especialmente pelos mais desfavorecidos a quem auxiliava com os seus poucos recursos. Diz-se que morreu pobre porque tudo o que tinha repartia pelos que mais necessitavam.

Colocou-se logo, com a sua morte, uma questão. Não havia, a cargo da Igreja, um lugar digno, no Cemitério, para ser sepultado. O seu adversário político principal, que era o Presidente da Junta na altura, António Carneiro dos Santos, colocou imediatamente à disposição o seu Jazigo para que o corpo do Abade Moura ali fosse colocado. Esta foi uma solução temporária pelo que, logo após a sua morte, a Junta reuniu e deliberou abrir uma subscrição pública para a construção de um Mausoléu onde perpetuamente fosse sepultado.

Os amigos e companheiros de Partido do Abade Moura constituíram uma Comissão com o objectivo de também reunirem fundos para a construção de um Mausoléu. Dois irmãos do falecido, já depois de recolhidos alguns donativos pela Junta, entre os quais os dos seus membros e do Regedor (que foram os primeiros a contribuir) escreveram àquela Autoridade Administrativa informando que não aceitavam a homenagem da Junta, mas sim a homenagem da Comissão entretanto criada. Isto obrigou a que a Junta mandasse celebrar uma Missa por alma do Abade e no final da mesma distribuísse o valor dos donativos recolhidos pelos pobres.

A Comissão do Mausoléu do Abade Moura teve, porém, uma existência longa pois a construção daquele Jazigo não foi fácil, não por falta do dinheiro necessário, mas por razões políticas. Logo passado pouco tempo da sua existência, começaram os problemas com a Junta.

Em dada altura a Junta teve de ser intimada pelo Tribunal Administrativo a dar despacho ao requerimento do representante da Comissão e dos irmãos do falecido, para a cedência do terreno para o Mausoléu, isto depois de um deputado do Parlamento, Dr. João Arroyo, ali ter denunciado a irregularidade da Junta da Foz. Este "travão" ao deferimento era justificado pela Junta baseando-se no artigo 17Q do Regulamento do Cemitério, que previa a indicação de alguém que, após a construção de um Jazigo, ficasse incumbida de velar pela sua conservação. Para se ter uma ideia do que se dizia na imprensa da época, sobre o assunto, transcrevo um extracto da notícia publicada pelo jornal semanal "O Globo", n9 1, ano 1, em 10/03/1889: "O Mausoléu - Ainda está bem patente na memória dos parochianos da Foz, a celebre questão do mausoléu do fallecido abbade Moura, que tanto pasto deu à intriga política. A junta de parochia, esquecendo-se simplesmente do parocho da freguezia, quiz expontaneamente erigir-lhe, por meio de uma subscripção publica, um monumento onde repousassem os restos mortaes do reverendo Moura, que tão cedo se finou, devido, talvez, mais á incarniçada lucta de uma política cheia de ódios e de rancores, do que ao trabalho de converter a heresia,... Mas, depressa se viu disputada, e a junta de parochia, querendo evitar que uma questão de sentimento geral, fosse convertida n'uma questão política, como já o era desde que appareceu uma commissão contendora a disputar a supremacia da junta, sob pretexto de que a commissão era regeneradora e a junta progressista. Esta desistiu do seu propósito, para evitar um odioso de que os amigos políticos do infeliz abbade já se não livraram. E fez bem a junta."

Pelo Relatório e Contas da Comissão, publicado em 1891, pela Imprensa Moderna, da Rua de Passos Manuel, 57, no Porto, poder-se-á também avaliar um pouco da atribulada vida daquele conjunto de pessoas. Inicialmente Presidida por Miguel do Canto e Castro, teve algumas substituições, por morte de membros, entre os quais o próprio Presidente. Terminou a sua acção em 1891 (a trasladação do cadáver foi efectuada em 26-12-1889, ainda antes da obra terminada), depois de ter arrecadado uma receita de quatrocentos e trinta e sete mil, quinhentos e setenta réis, de donativos, dos quais deixou, como saldo e depois de pagas todas as despesas com a construção, oito mil réis para serem distribuídos pelos pobres da Paróquia, na Missa de aniversário da morte do Abade.

Mais tarde, em 1925, constituiu-se outra Comissão - esta, ao que se sabe, sem ligações político-partidárias - para angariar fundos para construção de duas Capelas. Uma para satisfazer a vontade de muitas pessoas da Foz, que pretendiam que o corpo do Abade Moura ficasse à vista de todos. Foi assim que, em 24-8--1929, concluída esta Capela, para lá foi trasladado o corpo, onde ainda hoje se encontra.

A outra capela, destinada ao culto religioso, veio a ser construída muito mais tarde, tendo sido benzida pelo Bispo do Porto em 31-10-1946 e inaugurada em 2 de Novembro do mesmo ano, pelo pároco da Freguesia, P.e Manuel Dias da Costa.


O mausoléu encontra-se vago. Contudo, conta-se há muitos anos na Foz a história de que o Abade Moura «não quis ali estar», pelo que «fez abanar o jazigo até partir a coluna» Deste mausoléu, constituído por um quadrado de mármore, com uma coluna grega partida, que simboliza interrupção prematura de uma vida, aqui se reproduz o desenho original, da autoria de João d'0liveira.


Não deixa de ser curioso ler uma acta da reunião da Junta de Freguesia de há mais de cem anos. Nesta altura a imprensa publicava praticamente o texto completo das actas. Aqui se transcreve, integralmente, o teor da notícia publicada, em 22 de Julho de 1887, no jornal «O Comércio do Porto»:


Junta de parochia da Foz

Reuniu no domingo passado a junta de parochia da Foz do Douro, sob a presidência do snr. António Carneiro dos Santos, estando presentes todos os vogaes.

Deu-se conta do seguinte expediente:

Um officio do rev. Joaquim Moreira Maia participando ter sido nomeado e offerecendo os seus serviços - Resolveu-se agradecer.

Do snr. barão de Paço Vieira, vice-presidente da commissão para erigir um mausoléu ao falecido abbade da Foz, acusando a recepção de um officio da junta.

Do snr. administrador do bairro ocidental, dizendo que a junta deve eleger um dos seus membros para fazer parte da commissão do inquérito agrícola - Foi proposto o snr. Joaquim Ferreira Campos.

Do snr. presidente interino da commissão especial do inquérito agrícola na região do norte, enviando três avisos, dous para serem affixados e outro para ser remettido ao rev. párocho, a fim de o ler á missa conventual por espaço de um mez. - Inteirada.

Do professor official, enviando uma relação com os nomes dos alumnos ap-provados no corrente anno em exame de admissão nos Lyceus e em exame elementar, apontando que assim via a junta, e especialmente o seu presidente, coroados os esforços que empregara.

O snr. presidente disse que os encómios os devolvia intactos ao digno professor-ajudante o snr. Loureiro Dias, porque era realmente a ele, pelo seu incessante trabalho, vocação especial e pela sua assiduidade nos trabalhos escholares, que se deviam os bons resultados colhidos pela primeira vez nas escholas parochiaes. Ao snr. Miranda, professor-official, também cabia uma grande parte n 'este bom êxito. Propôz que na acta se lançasse um voto de louvor ao professor-official, e ao professor-ajudante o snr. Loureiro Dias um voto de recohecimento e louvor, especial - Foi approvado por unanimidade.

Resólveu-se que uma commissão, de três vogaes se entendesse com os proprietários da fundição do Bolhão, a fim de se conseguir um abatimento na proposta que haviam feito para a grade do cemitério parochial e caso o não façam annunciar-se de novo a arrematação.

Com relação a um requerimento apresentado pêlos snrs. Joaquim dos Santos Ferreira Moura e António dos Santos Moura, pedindo que lhes fosse vendido o terreno necessário para construcção de um jazigo. - Resolveu-se que os requerentes declarem quem fica obrigado ao cumprimento do disposto no regulamento do cemitério.

O snr. presidente participou que, de harmonia com o resolvido, tinha ido, em companhia de dous vogaes e do snr. regedor, abrir a caixa que se collocou á porta da igreja para receber esmolas com applicação á construcção do jazigo para o fallecido abbade, e se verificou existir n 'ella a quantia de 265 réis, que em seguida distribuiu pelos pobres em suffragio da alma do finado.

O snr. presidente referiu-se aos benefícios prestados ás classes pobres pelo snr. Júlio Augusto Diniz Sampaio, facultativo da corveta «Sagres» e residente na freguesia, que dá consultas e faz visitas domiciliarias, sem a menor retribuição, e propôz que fosse lançado na acta um voto de louvor ao referido facultativo e que d'esta proposta se desse conhecimento a s.ª exc. ª, e que a junta apresentasse á exc. ma camara pedindo-lhe que, visto achar-se vago o lugar de medico do partido, fosse elle dado ao cavalheiro que alli era conhecido por «medico dos pobres». Depois de todos os vogaes fazerem as melhores referencias ao snr.Sampaio, foi a proposta approvada por unanimidade, resolvendo-se mais, por proposta do vogal o snr. Claudino, que na representação a fazer á exc. ma camara se solicitasse também que os medicamentos fornecidos aos pobres fossem pagos pelo município.
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Em 1987 foi constituída uma Comissão para realizar o programa da comemoração dos cem anos da morte do Abade Moura (Comissão a que tive a honra de pertencer), pelo Pároco, da época, Padre Orlando Ramos dos Santos,. Esta Comemoração, celebrada condignamente, culminou com uma Missa Solene na Igreja Matriz, na qual participou a Banda Marcial da Foz.



Há, porém, em minha opinião, ainda algo de importante a fazer em relação a esta eminente figura, que é de toda a justiça: atribuir o seu nome a uma artéria desta Freguesia.


Em 7 de Novembro de 1981, na qualidade de Vice-Presidente da Direcção da Cooperativa de Habitação Económica de Nevogilde, apresentei uma proposta à Direcção para que uma das praças que vão resultar da construção do complexo habitacional daquela Cooperativa, na Ervilha, se passasse a designar "Praça Abade Moura". Esta proposta foi de resto completada por uma outra do meu amigo e companheiro da fundação e da Direcção daquela Cooperativa - Emanuel Rebelo - que na altura era Presidente, que propôs que a outra artéria se designasse "Praça Dr. Ramalho Fontes", em homenagem a outra figura ilustre da nossa Foz e que dela falarei num dos próximos números desta jornal. Estas propostas, aprovadas por unanimidade, foram posteriormente enviadas à Junta de Freguesia da Foz. Esta, por sua vez, submeteu-as à Assembleia de Freguesia. Foram, também, aprovadas por unanimidade por aqueles dois Órgãos Autárquicos.


Resta agora, à Comissão de Toponímia da Câmara Municipal do Porto, pôr em prática este desejo local. Esperemos!

Foz do Douro, Março de 1996


Este meu artigo foi publicado na edição n.º 13 do jornal O Progresso da Foz, jornal local, em Março de 1996

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Casa Manuelina



Em 1907, num terreno comprado por setenta contos e duzentos mil reis, o Capitão de Artilharia Arthur Jorge Guimarães, um Republicano que mais tarde veio a exercer as funções de presidente da Comissão Municipal Administrativa da cidade do Porto, mandou edificar um prédio que passou a ser conhecido como a Casa Manuelina.
O estado actual da casa aqui referida. Uma vergonha. Repare-se que tem uma placa "Arrenda-se".
Em local privilegiado, frente ao mar, na avenida do Brasil junto ao Molhe, avenida que foi parte da estrada de Carreiros, via de ligação da Foz a Bouças (Matosinhos) a que Alberto Pimentel se referia em 1938, no livro “O Porto Há Trinta Anos”, como local de “solidão profunda, mas pitoresca, em que apenas se ouvia a voz do mar”.
Com um tipo de decoração evocativa de efémeras grandezas passadas, encontramos naquela casa toda a simbologia e ingredientes necessários à imposição de ideais patrióticos.
Dotada de três pavimentos, onde não faltam decorações como a “Cruz de Cristo”, “Esferas Armilares”, evocando a heráldica manuelina, azulejos decorativos a recordar a epopeia quatrocentista, onde está representada a largada das naus com a Torre de Belém ao fundo, bem como outros, reveladores do bom gosto e do poder económico de quem a mandou edificar.
Encontra-se fechada e muito degradada. Foi, há poucos anos, abrigo de uma família que ali instalou uma oficina de sapataria. (texto extraído de um artigo de Filomena Carvalho, publicado na revista O Tripeiro)

terça-feira, 13 de abril de 2010

Figuras do Porto de antigamente


A Carlotinha
Em meados do século IX, existia no Porto uma figura muito conhecida a quem chamavam Carlotinha.
Diligente e madrugadora, segundo relata o Brigadeiro Nunes da Ponte no seu livro “Recordando o Velho Porto” editado em 1963, a Carlotinha saía todas as manhãs de sua casa bastante cedo. Fazia-se acompanhar de um cesto e de um pequeno banco de três pés, que também lhe servia de mesa.
No cesto transportava, além do almoço, os ingredientes necessários ao duplo mister em que exercia a sua actividade: escrever cartas e cortar calos. Bem díspar aquela dupla função, mas era a que religiosamente executava.
Dirigia-se, para esse fim, à antiga Rua dos Ingleses, actualmente chamada do Infante D. Henrique, e instalava-se na borda de um passeio, aguardando a freguesia.
Sobre a mesa colocava um frasco de tinta, que ela própria fabricava, papel branco e uma pequena lata com areia, a fazer as vezes dos “mata - borrões” ou papéis de chupar.
Então, placidamente, esperava os clientes, constituídos em grande parte por galegos, nostálgicos e saudosos de suas terras, criadas de servir, rapazes, raparigas ou mesmo velhos, e a todos ia escrevendo as cartas que lhe fossem ditadas.
Em missivas amorosas, cartas de namoro, era verdadeiramente exímia, mas o preço, igual para todas, grandes ou pequenas, era de 40 reis (um pataco), por cada uma.
Nos intervalos da escrituração, dedicava-se à profissão de calista “pedicura”, operando os doentes no mesmo local, para o que lançava mão da sua completa aparelhagem cirúrgica: uma navalha e uma tesoura.
Ao lado tinha um pequeno frasco, onde ia deitando os calos extraídos. Se a operação corria bem, limitava-se a colocar papel pardo sobre o local da extracção. Se surgissem complicações, se aparecesse sangue, recorria à prudente aplicação de uma teia de aranha sobre a ferida.
Assim foi a Carlotinha ganhando honestamente a sua vida, no desempenho das duas funções literata e cirurgiã.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A "Menina nua"


- uma estátua que todo o Porto conhece...

Chamava-se, Aurélia Magalhães Monteiro, e era conhecida por Lela, Lelinha ou pela «Ceguinha do 9» - para a eternidade ficará sempre a ser a «Menina Nua» da Av. dos Aliados, ou ainda uma estátua que toda a cidade conhece e aprecia.
Nasceu no dia 4 de Dezembro de 1910, na freguesia do Bonfim, e pouco tempo antes de falecer, dizia-me «que tinha sido uma das mulheres mais apreciadas e cobiçadas do seu tempo...».
Vivia no rés-do-chão do Bloco 9, do Bairro da Pasteleira, numa casa simples e humilde com flores a enfeitarem a entrada e a sala de jantar.
Um dia convidou-me a entrar e contou-me um pouco da história da «Menina Nua»: - «Tinha 21 anos quando fiz de modelo para o Henrique Moreira, o mestre que fez a estátua; mais tarde colocaram-me na Av. dos Aliados - que belos anos aqueles! Estive duas semanas a «posar» e ainda hoje recordo com alegria e saudade aqueles momentos de trabalho, pois posso morrer amanhã que todos ficarão a saber quem era a Lela... Além disso, nessa altura, dava-me bem com os artistas, era bonita e eles convidavam-me, andava por toda a parte, ganhei uns «cobres» com o Henrique Moreira, mas hoje... resta-me a consolação de estar ali, de costas voltadas para o Almeida Garrett e de frente para o D. Pedro IV. Perguntei-lhe nessa altura, se não tinha existido certos problemas com a estátua, a sua nudez, por exemplo: proibições, censuras?
-«Ela respondeu-me - bem, sabe que naquela época, havia certos sectores que se opunham claramente e até ficaram escandalizados com a «Menina Nua»; nós éramos muito tacanhos, e veja bem que há 50 anos, a ideias eram realmente diferentes, havia o Salazar, a Pide e o povo era mais fechado, mais religioso - felizmente o mestre Henrique Moreira conseguiu «levar a água ao seu moinho», e lá fiquei de pedra e nua, assim como Deus me votou ao Mundo... (Sorriu de imediato, mostrando ainda réstias de um rosto bonito e de uma boca fina, onde rareavam já alguns dentes, vítimas do peso dos anos e das canseiras e desgraças da vida). -... Além disso, imagine uma «moçoila» no tempo «da outra senhora», a expor-se toda nua perante uns homens de tela e pincéis ou bocados de pedra, bem... era quase como ser comunista ou mulher da vida...
Fez-se uma pausa para mandar-mos umas «bocas» contra o sistema do antigamente e prossegui nessa altura, perguntando-lhe: - quando e onde tinha começado a ser modelo? Antes de me responder, fica um pouco pensativa, levanta-se e encaminha-se para o seu quarto, vasculha dentro do guarda-vestidos e traz-me um amontoado de papéis e fotografias - Vá, veja lá tudo isto, diz-me: (anotei visualmente uma série de fotografias, pequenas referências, recordações e memórias da «Menina Nua»): «... De qualquer modo e se a memória não me falha, comecei com o mestre Teixeira Lopes, na figura-modelo da rainha D. Amélia, esta estátua encontra-se actualmente no Museu com o mesmo nome, em Vila Nova de Gaia. Nessa época, tinha muita vergonha - era uma «moçoila» com 18 anos, bem feita e bonita -, a minha mãe tinha falecido e fiquei mais tarde com uma madrasta, de quem por acaso não gostava nada, por isso mudei-me para o Bonfim, para casa da minha santa avó. Que tempos... nessa altura, iniciei-me como modelo nas Belas Artes do Porto e lentamente fui-me habituando, até que fiquei mais descarada... (Levantou a cabeça, e numa reflexão interior com risos de vaidade e inconformismo), continuou:... Ah, nesse tempo, punha a cabeça dos rapazes em fogo, era bonita e não havia ninguém que não me conhecesse como a «Menina Nua». Depois passei alguns anos como modelo, andei pelo Norte, pelo Sul e até a Lourenço Marques (hoje Maputo) eu fui - fiz de modelo para vários mestres, entre eles: Acácio Lino, Joaquim Lopes, Dórdio Gomes, Sousa Caldas, Augusto Gomes, Camarinha e os consagrados, Henrique Moreira e Teixeira Lopes. Além da «Menina Nua», estou no Buçaco, no Cinema Rivoli, em Lisboa e em Moçambique... e hoje? como vê aqui estou desde os 43 anos cega, uma vida difícil de adaptação, um mundo escuro, negro. E mais negro se tornou, aquando da morte do meu marido, fiquei completamente só.
Hoje, passados alguns anos, tenho um casal a viver comigo, sempre me ajudam a pagar a renda e a «fazer-me» um pouco de companhia. Tenho umas ajudas do Centro de Dia da Terceira Idade, ligado ao Centro Social cá do bairro, onde vou almoçar e lanchar, enfim, sempre ajuda a passar o tempo e a velhice. Mas o que eu, mais desejava na vida, além de mais dinheiro para viver, era dos meus ricos olhos... (algumas lágrimas correram-lhe pelas faces, enquanto se preparava para ir almoçar ao Centro...) Despedi-me dela, tentando consolá-la com frases de carinho e amizade, mas... a vida é um cão que não conhece o dono; ela despediu-se (nessa altura), com um bom dia, entrecortado com um sorriso mor gaiato, misto de Ribeira, Bonfim e Pasteleira...
Aurélia Magalhães Monteiro, a Lela, Lelinha, ou a «Ceguinha do 9», faleceu no dia 2 de Junho de 1992, com 82 anos de idade; no entanto a «Menina Nua», continua viva, fixa e eterna, ali na Av. dos Aliados envolta nos nevoeiros citadinos, perpétua e ardente, nos dramas e vitórias deste povo.
Do livro Pasteleira City, de Raul Simões Pinto – edições pé de cabra – Fevereiro de 1994

domingo, 11 de abril de 2010

Monumento na praia de Matosinhos


Na praia de Matosinhos, topo norte, encontra-se implantado na areia um conjunto escultórico da autoria de José João Brito, inaugurado em 04 de junho de 2005.
Aquele escultor, ao criar este monumento, inspirou-se na famosa tela de Augusto Gomes intitulada “Tragédia do Mar”, evocativa dos naufrágios ocorridos na madrugada de 1 para 2 de dezembro de 1947, onde perderam a vida cento e cinquenta e dois pescadores.
Setenta e uma viúvas e cento e cinquenta e dois orfãos, de Matosinhos, foram ali evocados, quase sessenta anos depois, num monumento, há muitos anos um anseio da comunidade piscatória deste concelho, que é já uma das marcas de referência da paisagem e da memória de Matosinhos.

Agostinho Barbosa Pereira

Imagens de Matosinhos à Foz do Douro

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